Isto Vai Ser o Futuro – Entrevista com Rúben Silva, vencedor do Masterchef Portugal 2019

Tivemos a oportunidade de falar com o Rúben Silva, vencedor do Masterchef Portugal 2019 e que agora está em Espanha no Basque Culinary Center a terminar um curso de culinária. Discutimos o seu percurso, influências, expectativas para o futuro e de que maneira a Eyekitchen está a revolucionar o mundo da restauração em Portugal. Fica aqui a entrevista na integra:

Quando decides fazer carreira na cozinha e qual a primeira recordação?

R: A cozinha sempre fez parte da minha vida de uma forma muito paralela. Eu tive restaurantes, o meu pai tinha restaurantes e eu sempre estive ligado à sala e ao bar, mas a cozinha sempre esteve presente de uma forma paralela, acompanhou-me ao longo da minha carreira, aquela curiosidade, o bichinho pela cozinha, o conhecimento dos pratos, o espreitar o cozinheiro a fazer. Aos 16 anos fui para a escola de hotelaria, fui tirar barman e empregado de mesa, mas a paixão pela cozinha começou por aí.

Qual a tua maior influência na cozinha nacional e internacional?

R: Maiores influências: Nacional Ljubomir Stanisic, pela sua forma de estar, Internacional Marc Pierre White, por ser um cozinheiro que conseguiu ganhar 3 estrelas Michelin de cozinha francesa, sem nunca ter colocado os pés em França.

Quais os ingredientes fundamentais para ser um bom chefe e o que dirias se te pedissem para transmitir a receita para o sucesso?

R: Para ser um bom chefe eu não sei, porque antes de ser chefe é preciso ser cozinheiro, e há muita falta de cozinheiros. Há muitos “ditos chefs”, mas poucos cozinheiros. Ser chef é um momento da vida de um cozinheiro, em que tu ganhas experiência e depois és chefe, porque comandas uma cozinha, porque tens pessoas a teu cargo, mas essencialmente, para ser um bom cozinheiro é preciso dedicação, esforço, foco, e só a partir dai é que podemos pensar em ser chef. Primeiro cozinheiro, e só depois chef.

Qual foi o melhor cozinheiro com quem já trabalhaste?

R: É difícil, porque a minha carreira começou há pouco tempo, mas já passaram, principalmente no Masterchef passaram grandes chefs lá. Eu gostei de vê-los trabalhar e ajudaram-me imenso. Rui Paula, Miguel Rocha Vieira e o Nuno Bergonse, vou enumerar esses três porque eu convivi 3 meses com eles e acho que me passaram inúmeros conhecimentos.

Onde imaginas estar daqui a 10 anos?

R: Primeiro vou estudar, o conhecimento é muito importante, porque daqui a um ano já ninguém se lembra do Rúben do Masterchef, e o que vai ficar vai ser o curso que eu vou tirar no Basque Culinary Center e o conhecimento que eu vou adquirir. Quanto ao meu futuro não faço a mínima ideia, eu há um ano não fazia a mínima ideia que poderia ganhar um Masterchef e ganhei, por isso daqui a 10 anos não faço a mínima ideia, certamente vai ser uma coisa com sucesso e quem sabe, estrelas Michelin. Quem sabe…

O que mais gostas de cozinhar?

R: O que mais gosto de cozinhar é peixe e marisco, como toda a gente deve ter reparado no programa. Mas cada vez mais estou vocacionado para reinterpretar um bocadinho a cozinha tradicional portuguesa, que acho que são as nossas raízes e se não fores bom nessa parte mais tradicional acho que não conseguimos evoluir. Eu acho que estou apaixonado pelas nossas raízes e pela cozinha portuguesa, reformulando ligeiramente pratos típicos, mas mantendo sempre o respeito pela tradição.

Foste vencedor do Masterchef, imaginavas algum dia chegar onde chegaste?

R: Vencer o Masterchef foi uma surpresa. Primeiro foi uma surpresa conseguir entrar, depois estar no Top 15. Comecei aquilo de uma forma intensa e aprender, com todos os chefs e todos os colegas. A partir do top 5, já acreditei que se calhar conseguia ganhar, mas até la tentei usufruir ao máximo de todo aquele momento que é uma oportunidade única na vida. A partir do top 5 já sentia aquela ansiedade, e já que estou aqui se calhar vou tentar ganhar, e foi isso. Mas nunca imaginei conseguir ganhar.

O que achas que mudou na tua vida depois disso?

R: Mudou muita coisa, mudou o facto de ser conhecido na rua. Mudou essencialmente também o facto de eu sair de lá com muito mais conhecimento, e de haver uma quebra na minha vida e de mudar de rumo. Eu estava numa área muito mais ligado à sala, muito mais ligado ao bar, e agora estou a introduzir muito mais na cozinha e se calhar a maior mudança é essa, é tu mudares de rumo na tua vida e acho que é disso que se tira mais partido, tirando a fama, que a fama depois passa, penso que é isso.

Qual o conselho que dás aos aspirantes de cozinha que te vêm com uma referência?

R: Não gosto de pensar que sou uma referência, se bem que muita gente que acompanhou o programa se identificava com a minha parte mais emocional, mais vincada por ser do norte, e eu tento transmitir isso também. Os conselhos que dou é que para seguir esta profissão é preciso muito sacrifício, estudar muito, temos de ser autodidatas, perguntar sempre o porquê das coisas, o porquê das coisas acontecerem e ser muito disciplinados. E também sacrifício, eu acho que para ser um bom cozinheiro e para ser um cozinheiro de sucesso é preciso muito sacrifício, estudar, ser muito objetivo, e ser muito focado nas coisas. Eu acho que são esses os pilares fundamentais.

O que achas do objectivo do Eye Kitchen?

R: Eu acho que o Eye Kitchen veio colmatar e aproximar mais a pessoa do prato que vai ser confecionado. Antigamente chegávamos a um restaurante, olhávamos para um prato escrito, mas não tínhamos muitas das vezes a perceção de que prato iríamos comer. Eu acho que com o Eye Kitchen essa barreira é aproximada e muitas vezes até já nem existe, porque vemos um pequeno vídeo de como o prato vai ser confecionado e de como vai aparecer na mesa, isso é muito bom para o cliente, porque fica logo com uma perceção e consegue escolher muito mais facilmente o prato.

Acreditas que o futuro passa por ter este tipo de ferramentas?

R: Eu acho que o futuro passa muito por isso, num mundo global e de tecnologia, em que muitas vezes já recebemos um menu num tablet e uma série de tecnologias agregadas a restauração. Eu acho que o Eye Kitchen complementa muito mais essa experiência e dá-te uma experiência muito mais rápida e muito mais fiel ao que vais comer, e eu acho que isso é importantíssimo.

Aposto que já tiveste más experiências como cliente num restaurante, achas que com o Eye Kitchen isso era evitado?

R: Eu acho que o Eye Kitchen evita para o cliente comum ser defraudado num prato, muitas vezes vemos a descrição de um prato, mas muitas vezes não esta completa, falta um ingrediente ou outro que o cliente não gosta, e tendo esta ferramenta é muito mais fácil para o cliente evitar erros ao pedir um prato, e não conseguir come-lo, ou porque tem algum ingrediente de que não gosta, ou porque não sabe com o que o acompanha. Eu acho que isso é muito mais fácil, é bom para o cliente e é bom para o restaurante, porque o restaurante assim fica com uma ferramenta que vai diretamente ao gosto do cliente, e o cliente pode logo substituir alguma guarnição ou algum apontamento que não goste, e eu acho que isso é fundamental.

Quando foi a última vez que foste ao McDonald’s?

R: McDonald’s não, Burguer King. Na semana passada (risos).

Melhor filme para um dia de chuva?

R: Melhor filme num dia de chuva? Filme não, serie, Chef’s Table, na Netflix.

Existe algum prato que não gostes de comer?

R: Existe um prato que eu não gosto de comer. Mesmo. Dobrada, não gosto. Aqui no norte o chamado “solas”, não aprecio, não gosto. Não gosto da textura.